Virgindade – Andrea Dworkin (Parte III)

Joana foi assassinada em Rouen em 1431, em parte porquê ela ouvia vozes e via luzes; a Inquisição repetidamente a interrogou sobre esses fenômenos e a condenou por eles. Apenas 412 anos depois, com 22 anos, três a mais do que Joana quando ela morreu, em seu caminho de volta a casa em Rouen, uma outra pessoa viu luzes e ouviu vozes:
“Luzes douradas, cintilando em uma intensidade indescritível, começaram a piscar em frente ao olho esquerdo dele, e todo o seu cérebro pareceu estar explodindo simultaneamente em milhares de visões e cenas multicoloridas…”
O drama, a magnitude do evento, sugere um ego masculino no centro da experiência. Não há nada ali tão banal como aprender a portar uma espada ou instruções sobre como ser pio, nada que demande disciplina e responsabilidade, como fazer uma guerra ou coroar um rei. Ao invés disso, há sensação, sentimento por si só, a intensidade de um ordenamento sublime e local. Em Rouen, sua casa, ele experenciou:
“Primeiro o brilho, os sons; depois o terror, causado pelo sentindo de dispersão da sua personalidade e a aproximação da aniquilação; então os milhares de pensamentos, imagens, combinações fantásticas de todos os tipos aglomerando-se de uma vez só em seu cérebro como meteoros brilhantes em uma chuva de fogos de artificio. Ele mesmo depois descreveu suas visões como “perdas seminais da faculdade pictórica da imaginação”, ou como combinações de “Sta. Theresa, Hoffman, e Edgar Poe.”
Ele não foi queimado vivo, apesar de que seu pai, um médico, tentando trata-lo, acidentalmente derrubou um pouco de água quente em sua mão. Ao invés disso, ele foi levado à cama, recomendado que descansasse, não se excitasse, não consumisse café ou vinho ou carne, não fumasse, e “levasse uma vida perfeitamente tranquila…” Foi permitido a ele que deixasse a universidade em que estava cursando direito, que ele odiava; para que se recolhesse nas propriedades rurais de sua família, que ele raramente deixou desde então; e que escrevesse, meticulosamente, livros. De seu abastado repouso, ele escreveu, o que uma edição atual de sua obra exalta como “o maior retrato já escrito sobre a alma de uma mulher em revolta contra a sociedade convencional.” O livro não é sobre Joana D’Arc. É, na verdade e ao contrário, sobre Emma Bovary, uma pequena burguesa da qual o maior ato de rebelião é cometer adultério. Com essa mulher, chamada de “minha pequena dama” pelo seu criador, a era moderna começa: a era da pequena burguesa buscando liberdade. Liberdade para as mulheres é descrita estritamente como realizar atos sexuais proibidos. Heroísmo feminino é ser fodida e querer isso. Igualdade para as mulheres significa ter a experiência de uma paixão sexual real – querendo isso, não fingindo. Há uma equação entre apetite e liberdade, especialmente promiscuidade (como uma forma de apetite) e liberdade. Uma romântica, não da tradição viajante e lírica de Shelley ou Byron, mas de fato, uma romântica de mulher com a cabeça vazia e fantasias fragmentadas febris no cérebro, “ela cultuava Mary Stuart e tinha uma veneração entusiástica por mulheres ilustres e infelizes… que apareciam para ela como cometas na escura imensidão do céu…” Para Emma, Joana era um desses cometas, uma figura da fantasia, nunca tendo vivido na terra no campo das possibilidades reais humanas. A mente de Emma, embaçada por fantasias religiosas e românticas, desejava “o raro ideal das vidas pálidas, nunca alcançado por corações medíocres.” Em sua sentimentalidade, “ela amava o pobre cordeiro, o coração sagrado perfurado por flechas, o pobre Jesus afundando em baixo da cruz que carrega”; e em sua impotência, “ela tentou, como forma de mortificação, não comer nada durante um dia. Ela vasculhou sua cabeça a procura de algum voto para cumprir.” Alternando entre agitação e tédio, com uma mente preenchida de fantasias ao invés de ideias e possibilidades, sem nenhum proposito ou compromisso, sem nenhuma ação, nenhuma vocação, apenas as tarefas e obrigações tediosas do ambiente doméstico, envolvida demais em si mesma para encontrar tanto paixão como emoção nas relações humanas comuns, incluindo a maternidade, ela é incapaz – usando as palavras de Iris Murdoch – de excelência moral ou artística, devastada por estar imersa em fantasias pessoais, “as maiores inimigas da excelência,” “a trama de desejos auto engrandecedores e consoladores, e de sonhos que impedem alguém de ver o exterior de si,” Murdoch ilustra a distinção entre fantasia e visão com o seguinte exemplo:
“Rilke disse sobre Cezanne que ele não pintava ‘Eu gosto disso,” ele pintava “Ai está.”
Isso, ela conclui, “não é fácil, e demanda, nas artes ou na moral, disciplina.”
Preocupada com fantasias, Emma não vê ou experiencia o munda fora de si mesma, exceto como uma privação de atenção de sua neblina interior, então, ela permanece essencialmente intocada – pelo marido que a fode e pelas possibilidades humanas do mundo real de eventos reais. A virgindade é redefinida através dela, um significado moderno é forjado: uma mulher intocada é uma mulher que ainda não sentiu desejo sexual suficientemente para ficar doente por isso, viveu paixão sexual suficientemente para ansiar isso, e quebrou regras para ser carnal; uma mulher que foi fodida pelo seu marido mas sem sentir nada, ou sentir o suficiente, nenhum desejo, nenhum romance, nenhuma sensação fulgurosa, é ainda uma mulher intocada. Essa é uma nova virgindade de corpo e alma, e a alma sobrevive o casamento, e o casamento em si mesmo gera novas e incoerentes fantasias de grandeza romântica e sexual: “Mediocridade doméstica levou-a a ter fantasias lascivas, carinho marital a ter desejos adúlteros.” Não há nenhuma liberdade, nenhum heroísmo, nenhuma ambição além do domínio do sexo vivido como paixão carnal e também além da quebra de uma regra. O perigo está na extremidade dos sentimentos e no risco de zombar da tradição; e o perigo confirma a autenticidade do evento, excluído da historia, mas ainda sim possuindo a significância de um ato masculino por liberdade que, esse sim, pertence à história. O grande e aventuroso mundo de Joana torna-se o pequeno e sufocante mundo de Emma: e nele ainda hoje vivemos. A velha virgindade – com o seu real potencial por liberdade e auto-determinação – é transformada na nova virgindade – apática, tediosamente insatisfeita até que despertada pela nova aventura de dominação sexual masculina: combate no menor campo de batalha do mundo. Levou Freud a nomear a recusa de lutar nesse pequeno campo de batalha como “repressão” e nomear a ambição de lutar no grande campo “inveja do pênis”. A porta da cela se fechou atrás de nós, e a chave girou na fechadura.
A imagem de Emma é a de uma mulher incompleta: “ela tinha no canto da sua boca uma contração imóvel que vemos nas faces das mulheres velhas, e na de homens cuja ambição falhou.” Charles, marido dela, havia sido feliz após a noite de núpcias, atencioso, se dirigindo a ela com nomes carinhosos: “Foi ele quem mais parecia a virgem da noite anterior, enquanto a noiva não revelava sinal de coisa alguma.” Emma tentou encontrar as paixões e satisfações ela havia lido em livros – o sentido das palavras “felicidade, paixão, êxtase” – mas ao invés disso, o intercurso foi “um hábito entre outros hábitos, e, como uma sobremesa, esperado depois da monotonia do jantar.” Porém, depois de seu primeiro adultério, “nunca os olhos dela estiveram tão abertos, tão negros, com uma profundeza tão profunda.” Ela havia entrando em novo mundo: “Ela estava adentrando em maravilhas onde tudo seria paixão, êxtase, delírio.” Ela obteve a sensação sobre a qual havia sonhado: “O tecido de sua roupa encostou no veludo do casaco dele. Ela jogou seu branco pescoço pra trás, engasgando com um suspiro, e vacilando, em lágrimas, com um longo estremecimento, escondendo sua face, ela se entregou a ele.” Ela sentira desejo em seu coração antes, por Leon, que ela teria depois; mas Rodolphe foi seu primeiro amante, o primeiro homem que a fez sentir paixão. Ele gostava dela, até que gradualmente se tornou indiferente. Para prender a atenção dele – para obter sensações, como uma viciada precisando de drogas – ela se tornou mais e mais submissa: “ela redobrou-se em carinhos, e Rodolphe escondia menos e menos sua indiferença.” Ela sentiu-se dilacerada, em parte se arrependendo do romance por causa da dor, em parte querendo “aproveitá-lo ainda mais.” Ela sentiu “humilhação… que se transformou em rancor, temperada pelo prazer voluptuoso deles” Ela experienciou submissão sexual: “Ele a subjugava; ela quase temia ele.” Rodolphe sabia como usá-la: “Ele transformou-a em algo dócil e corrupto… a alma dela afundou na embriaguez dele…” Ela implorou a ele pra que a amasse, a quisesse, a usasse, deixasse ela ficar: “Ele havia tantas vezes ouvido coisas assim… Emma era como todas as suas outras amantes; e o charme da novidade, gradualmente caindo como um adereço, deixando exposta a eterna monotonia da paixão que sempre tem as mesmas formas e a mesma língua.” Entediado, ele a deixa. Ela fica então doente, retorna ao mundo de fantasias, deseja morrer, ir para o céu, ser uma santa até que Leon retorne a Rouen e eles possam ter um caso. Esse romance é extravagante e ela toma muitos riscos, incluindo usar o dinheiro da manutenção de sua casa para pagar um quarto de hotel e comprar presentes para o seu amante. Mas ele também, eventualmente, se cansa dela: ele “cochilava ao som de um amor do qual as delicadezas ele não mais notava.” E Emma “estava cansada dele da mesma forma que ele estava cansado dela”. “Emma encontrou no adultério novamente a monotonia do casamento.” Mas ainda assim, ela queria sexo ainda mais do que antes, com a decadência de suas indiferenças mutuas aumentando, assim como a indiferença de Rodolphe, ela desejava:
“Então, mesmo ela sentindo-se humilhada na base de seu prazer, ela se pendurou nele por hábito ou por corrupção, e a cada dia ela queria mais…”
Ela adquirira dividas, ela pegara dinheiro emprestado, penhorou e vendeu suas posses; ela foi ameaçada por credores; ela queria que Leon conseguisse dinheiro e fugisse com ela. Leon a abandonou, e ela foi deixada no caos de sua própria vida: seu marido entrou em dividas por causa do dinheiro que ela tirou dele e emprestou de outros. Ela tentou pedir dinheiro emprestado ao seu antigo amante, Rodolphe, mas ele a recusou. E no final ela se matou. Ela não foi reprimida. Diferentemente, ela foi corrompida e empobrecida e abandonada. Ela morre pelas próprias mãos, nenhuma fantasia sobra para a consolar. Ela foi fodida, ela quis isso, sentiu isso, desejou isso, perdeu tudo por isso; e disso ela não obteve nada, ela é vazia. O primeiro amante custou-a sua virgindade; ela a perdeu quando ela sentiu, desejou e procurou sexo. O intercurso em si, a submissão que estabelece nela, o habito de ser aquilo que o sexo a faz se tornar, a necessidade que ela tem do prazer que isso a dá, a transforma-a sem oferecer a ela nenhuma capacidade de compreensão, de saber, de amar. Foder leva à perda da ilusão, especialmente da ilusão de que amor, sexo e sensação são o mesmo que liberdade, heroísmo. As fantasias de Emma não podem enfrentar a dura realidade da dominação sexual masculinas: a foda, o tédio, o abandono. A corrupção de Emma é uma queda em uma sensualidade que é cobiça. Para ela, para os seus amantes, o prazer é o único objetivo da vida e apenas o prazer é real e algo que vale a pena. Enquanto ainda era virgem – casada e fodida, mas ainda intocada no sentido carnal – Emma possuía apenas a pobre existência interna da fantasia. Então, sensação consumiu essa vida interna, escassa como era. Ela é deixada com nenhuma substância interior. O intercurso a rouba qualquer integridade que ela tinha, mesmo que apenas fantasias privadas; e rouba dela todos os limites, sociais e éticos, no mundo real. Como Flaubert apresenta, a corrupção vem do intercurso em si: o que significa para ela querer e obter sensações durante o sexo com a autoindulgência de um bêbado. Esse ponto em particular não é sobre gênero: não é que seu adultério tem consequências sociais injustas por ela ser mulher. Os homens já incarnam as consequências humanas dessa corrupção. Eles são indiferentes às relações humanas e incapazes de empatia ou compreensão. O resto é gênero. Eles possuem o que ela não têm: cada um tem um ego e vive em um vasto mundo. Por terem o poder que homens têm, eles podem tomar seu prazer onde e quando o encontrarem, e cada um segue em frente quando fica entediado ou não mais suficientemente entretido. Para ela, cada homem é talvez sua única oportunidade; ela não pode criar oportunidades em sua domesticidade confinadora. Para manter o primeiro, e depois o segundo, ela irá até onde precisar; e a submissão abastece o sexo com humilhação e a humilhação com o sexo. O tédio é também intrínseco ao sexo. Inevitável e aterrorizante, os homens ficam cruéis em sua indiferença; e para tê-los ela se submete. Os ter significa que a sensação prevalecerá sobre sua própria vazia e chata vida. Sua autodestruição, incluindo sua morte, é a última avaliação do que ela se tornou: não porque ela é adultera, mas porque ela não tem nenhuma integridade, ela é nada. O suicídio é o seu reconhecimento de que atingiu o fundo do poço. Os homens, possuindo o mundo, tem um fundo mais fundo para atingir.
Atingir o fundo do poço para Emma acontece de forma classicamente feminina: o tabelião de quem ela quer emprestar dinheiro o dará a ela apenas em troca de sexo. “Eu devo evocar pena – não ser vendida,” ela diz a ele. Desesperada por ajuda, ela encontra Rodolphe, “não percebendo que ela estava prestes a se oferecer para aquilo, que não muito tempo atrás a tinha enraivecido, nem um pouco consciente de sua prostituição.” Fundo do poço é ter um homem socialmente inferior a ela tentando compra-la; e um homem socialmente superior a recusando, por dinheiro e sexo. Fundo do poço é se prostituir, com ou sem compreensão do que se faz. Fundo do poço é estar tão vulnerável que morrer é a única alternativa para evitar um cobrador. Um colega de seu marido sugere que sua lápide diga Sta Viator (“Rest Traveler”); mas ele enfim decide por Amabilen conjugem calcas (“Tread upon a loving wife”). De fato, ela foi incansável, nunca amando. Como uma jovem mulher casada:
“Ela dirigiu olhares desesperados a solidão de sua vida, procurando ao longe alguma embarcação branca no horizonte. Ela não sabia o que essa oportunidade seria, que ventos trariam a ela, para que litoral a levaria…”
Romance foi sua substituição suicida de ação; fantasia sua substituição suicida de um mundo real, um mundo amplo. E intercurso foi sua substituição suicida de liberdade.
Para seu criador, Gustave Flaubert, intercurso fora “sempre secundário”. Ele ficava nos cantos de bordeis, escolhendo a prostituta mais feia e fodendo ela sem nem tirar o cigarro da boca; e para Louise Colet, sua amante, ele explicou:
“Algumas vezes eu pensei em dar prazer a uma mulher, mas ideia do estranho espetáculo que eu deveria apresentar no momento de fazê-lo me fez rir tanto que todo o meu desejo derreteu em um fogo interno de ironia, que cantou um hino de zombaria e escarnio comigo.”
O intercurso em seu romance, no entanto, o envolvia sim. Em carta para Louise Colet, ele escreve:
“Eu estou em plena fornicação, exatamente no meio disso: minhas amantes estão suando e ofegando. Esse foi um dos raros dias da minha vida passado em completa ilusão, do começo ao fim… Agora sinto grandes dores nos meus joelhos, nas minhas costas e na minha cabeça. Eu me sinto como um homem que tem fodido demais (me desculpe a expressão) – uma forma de viagem lasciva.”
Ele não cometeu suicídio, nem foi queimado na fogueira. Ele foi processado por obscenidade na publicação de Madame Bovary e depois foi absolvido. Sua própria virgindade – o tipo literal – foi perdida quando o jovem mestre, de quase 15 anos, estuprou uma das criadas de sua mãe. Ele sentiu desgosto e desapontamento. Não existe nenhum documento do que ela sentiu. Escrever o tocava; quase nada mais o fazia. Como ele escreveu para Louise Colet, que não tinha o bom senso de tomar como algo pessoal:
“Bordeis oferecem camisinhas como proteção contra sífilis de vaginas infectadas. Que tenhamos sempre uma grande camisinha conosco para proteger a saúde de nossa alma em meio a sujeira em que está imersa.”
A privacidade dele – “uma grande camisinha” – foi criada por sua vontade e sua riqueza, na premissa da realidade de sua liberdade física como homem; suas fantasias foram elevadas a arte; suas visões foram tratadas como leitura de cabeceira. Emma, ele havia escrito em algum lugar depois de Rodolphe e antes de Leon, “agora conhecia a pequenez das paixões que a arte exagera.” Também ele conhecia, preferindo arte do que sexo, “liberdade em um mundo de ficções.” Ele pode ter encontrando distração ou os prazeres da dominação masculina no intercurso, mas ele encontrou sua liberdade em outro lugar.
Para D. H. Lawrence, com o qual nós estamos fadadas a sermos contemporâneas, mesmo ele tendo nascido em 1885, virgindade era “a perfeita delicadeza dela no corpo.” Andre Brink, que escreve sobre liberdade na África do Sul, imagina que perdendo essa “perfeita delicadeza”, uma mulher quer ser machucada, sangrar:
“… Eu tentei imaginar como você me machucaria e me faria sangrar. Eu queria sangrar, sangue cor de amora por você, por mim também: saber o que significa ser uma mulher, ser transformada em uma pessoa por você… Nem chegou a ser doloroso, com quase nada de sangue.
Isso é tudo? Eu perguntei.”
Sophie Tolstoy, já tendo sido “transformada em uma pessoa”, descobriu um outro significado na palavra [virgindade]:
“Hoje eu acordei pela primeira vez com uma consciência repentina da beleza da natureza; e meu sentimento era virginal – Eu quero dizer, sem associações, sem o reconhecimento de nenhuma pessoa através da qual eu deveria amar a bela natureza desses campos no passado. Algum tempo atrás eu elaborei toda uma teoria acerca da atitude virginal para com a religião, a arte e a natureza. A religião é pura e virginal quando não está conectada com todos esses Pais… mas conecta meu o coração apenas com Deus.”
Significantemente, ela considerava a arte virginal “quando você a ama por si e sem referencia ao artista…” Experiência não mediada pelo ego ou interpretação masculina é a ideia dela de virgindade. Na elaboração masculina, virgindade é um estado de espera passiva ou vulnerabilidade; é precedente e é antitética à inteireza, a existência de uma mulher da forma que vale alguma coisa; ela vale alguma coisa quando o homem, através do sexo, a dá vida. Na elaboração da mulher, virgindade é uma experiência completa de individualidade e identidade. Na elaboração do homem, virgindade é literalmente sinônimo de ignorância; na elaboração da mulher, é recuperar a capacidade de conhecer a partir de experiências diretas com o mundo. Parodiando a elaboração masculina, Italo Calvino escreve:
“Nós mulheres do campo, não importa o quão nobres, sempre vivemos vidas recolhidas em castelos e conventos remotos. Além das cerimonias religiosas, tríduos, novenas, jardinagens, colheita de uvas, chicotadas, escravidão, incesto, incêndios, enforcamentos, invasões, saqueamentos, estupro e pestilência, nós não temos nenhuma experiência. O que uma pobre freira pode saber do mundo?”
Nós vivemos na elaboração masculina; presas nela. Virgindade é ignorância; e conhecimento é ser transformada pelo conhecimento de um homem, não só penetrada, o evento literal. Virgindade é ainda não ter sido subjugada: ainda existir intacta, penetrada ou não.
O Dracula de Bram Stoker foi escrito em 1897. D. H. Lawrence ainda estava na adolescência e o mundo, sem querer, cambaleava entre a Era Vitoriana e o advento de Lady Chatterley. Dracula foi a ponte entre as duas eras, um livro medíocre, mas um grande mito, uma parábola sobre desejo e morte que enterrou os Vitorianos e deixou nós, crianças da noite, sairmos da cova.
Em Dracula, há duas virgens, Lucy e Mina. Os jovens homens que são seus pretendentes podem muito bem serem virgens também, mas na sociedade humana homens raramente são ontologicamente virgens.
Lucy é a garota a moda antiga, cercada por pretendentes, bonita, sapeca, dengosa, ornamental; e Mina é a Nova Mulher, uma defensora da igualdade da capacidade da mulher em relação aos homens: ela aprenderá a datilografar (um trabalho masculino na época, a maquina de escrever considera maquinaria pesada) pra que possa datilografar as anotações e artigos do seu marido e ser sua parceira em igualdade no trabalho. Seu feminismo é espirituoso e atrevido. Ela escreve em seu diário:
“Algumas das ‘Novas Mulheres’ escritoras irão algum dia lançar uma ideia de que homens e mulheres deveriam poder ver um ao outro dormindo antes do pedido e da aceitação do casamento. Mas eu suponho que a “Nova Mulher” não vai permitir no futuro apenas aceitar; ela será quem irá pedir propor o casamento. E um belo serviço ela fará! Há alguma consolação nisso. ”
Versões modernas da história, especialmente filmes, se concentram em Mina; mas o livro se concentra em Lucy. Ela é a mulher prototípica sem nenhuma ambição além do casamento. Ela não tem nenhuma ambição, nenhuma substância, exceto que ela é mulher no maior sentido: complacente, ignorante, uma virgem escolhendo um marido. Ela tem três propostas de casamento, e todos os três homens estão apaixonados por ela: eles não estão procurando por parceiras em igualdade; eles têm desejo sexual por ela. Ela sente desejo sexual por Arthur, então ela escolhe ele e rejeita os outros. Dracula, o vampiro, começa a seduzi-la; mas ela continua fisicamente virgem no sentindo convencional além de sua morte. O local do sexo é movido para a garganta; e o significado de sexo é drenar todo o sangue de seu corpo. Sua virgindade é uma “delicadeza perfeita no corpo,” e o derramamento de seu sangue não é um ritual apenas da primeira vez, mas de todas as vezes. Uma virgem literal, e certamente ignorante, ela não sabe nada e não deseja nada até ela mesma estar morta e se tornar uma predadora sexual: ai, ela tem um apetite por sangue, um apetite por vida, nunca mediado ou mais do que temporariamente saciado. Em vida, ainda humana, suspeita-se da sua pureza apesar de sua virgindade. Sua escolha pelo pretendente que deseja sexualmente já sugere que ela não é inteiramente boa, apesar das muitas falas comentando como ela o é. Durante seu longo caso com Dracula, quando ele vem e bebe o sangue dela e ela se submete e é hipnotizada e supostamente sente êxtase, seu sangue é reposto com o sangue daqueles tentando salvar sua vida. Arthur está fora; então outros doam sangue – seus antigos pretendentes e o Professor Van Helsing. Quando Arthur doa sangue, ele diz que a transferência de sangue significa que eles já estão casados. Os outros homens decidem não contar para ele que todos também estiveram casados com Lucy dessa forma. Arthur acreditava que “a transfusão de seu sangue para as veias dela tinha a feito verdadeiramente sua esposa.” A partir desse critério, Lucy foi tomada e tomada e tomada: por todos os homens e por Dracula, que como parte da conversão fez a vitima beber seu sangue, assim tornando-a uma eterna predadora.
Uma vez decapitada e com uma estaca em seu coração, não mais uma vampira, Lucy ficou “como as conhecíamos em vida, com sua doce e pura face.” Sua virgindade é devolvida a ela; e é Arthur quem consegue esse feito: “Me corria um tremor em pensar em mutilar o corpo da mulher que eu havia amado. Porém, o sentimento não foi tão forte quanto eu havia esperado.”
A virgindade de Lucy a traz muitos elogios, mas nenhuma força ou poder ou proteção. Durante todo o livro, seu sangue é drenado lentamente do seu corpo – e sua morte é assistida pelos homens como uma preliminar sexual prolongada – cada nível de sua palidez é um evento – Dracula tira o sangue dela e eles colocam o sangue deles nela – ela está perto da morte, mas ainda não está morta – mais bela quando acordada e então, enquanto ela avança para aquilo que deveria ser a morte, mais bela quando está dormindo e parece morta.
Mina é fisicamente virgem quando a história começa, noiva de Jonathan, que está fora a negócios, na verdade preso no castelo de Dracula na Transilvânia. Encurralado por vampiras mulheres, deixado pra elas por Dracula, Jonathan escapa e acaba em um hospital sofrendo de uma febre cerebral violenta. Mina deixa Lucy, que já está em declínio (Dracula nesse meio tempo já fez a viagem da Transilvânia para Inglaterra), e vai ver Jonathan no hospital, onde eles se casam.
Ela é uma parceira, uma esposa em postura de igualdade; e essa é a forma de sua continua virgindade – ela é intocada pelo sexo, pois não é carnal, não deseja sexo ou é sensualmente submissa. Sua integridade está intacta. Ela tem auto respeito e compaixão. Ela aprendeu a datilografar e taquigrafar para participar do trabalho de seu marido; ela decora o horário do trem para ajuda-lo, para agilizar seu trabalho. Ela é ativa, sempre antecipando as necessidades dele, mas sem ser servil; ela vê a si mesma como alguém que trabalha com ele; ela quer participar numa vida da intelectual e numa do trabalho, sem ficar desocupada. Ela tem o status de uma virgem devido sua relativa igualdade com marido no casamento: ela não é possuída, domada, rebaixada, levada ao chão pelo sexo; ela é intocada. Ela prova, de acordo com Van Helsing, um moralista a moda antiga, “que ainda existem boas mulheres para fazer uma vida feliz – boas mulheres, das quais as vidas e as verdades darão boas lições para as crianças que virão.” Van Helsing admite “seu grande cérebro, que é treinado como o de um homem…” Ainda assim, quando os homens tentar encontrar Dracula, eles excluem Mina. Ao ouvir a história da morte aparente de Lucy e sua verdadeira morte, é Mina quem conecta a linha dos eventos com as experiências de Jonathan no castelo de Dracula. Tendo contribuído com essa informação crucial, ela é então excluída de toda a discussão. Ela é socialmente definida como fêmea ao ser segregada da busca. Essa definição social a isola do dialogo e do conhecimento; e também a torna mais fisicamente vulnerável porque ela está fisicamente sozinha. Isso a genderiza [engendra?] como o casamento por si só não conseguiu:
“Todos concordaram que era melhor que eu não me envolvesse mais com esse terrível trabalho, e eu aquiesci. Mas pensar que ele não compartilha algo comigo! E agora eu estou chorando como uma boba, quando eu sei que isso veio do grande amor do meu marido e da boa vontade desses fortes homens.”
Ela é de segunda-classe, é tratada como segunda-classe, reconhece isso, e aceita isso, tudo pela primeira vez. Socialmente definida como fêmea, ela é vulnerável como fêmea. A ironia, é claro, é deliciosa quando Jonathan Harker olha sua mulher dormindo e se auto congratula por protegê-la:
“Eu entrei pisando leve no nosso quarto e encontrei Mina dormindo, respirando tão suavemente que tive que colocar meu ouvido perto para ouvir. Ela parece mais pálida do que o normal… Eu estou realmente agradecido por ela poder ficar fora do nosso trabalho futuro, e até de nossas deliberações. É algo pesado demais para uma mulher.”
Aparentar estar mais pálida do que o normal nesse livro já revela muito.
Ela foi feita fêmea e Dracula já está bebendo seu sangue. Depois ele escarnecerá dos homens: “Suas garotas que vocês amam já são todas minhas…” Ele quer especialmente Mina, porque ela é “a mais amada deles”; ela será sua “caridosa fonte de sangue por um tempo; e depois será minha companheira e ajudante” Ela, diferente de Lucy, é capaz de ser uma parceira: para Dracula assim como para Jonathan. É um prenuncio da feminista como objeto sexual, contanto que o sexo implique na completa destruição de sua integridade.
Dracula é uma nova narrativa sobre intercurso e os fenômenos associados a ele: luxuria, sedução, penetração, possessão, decadência e decomposição, morte. Com a criação de uma nova dimensão de carnalidade para o intercurso em um canibalismo literal, a virgindade também toma novos aspectos. Ser intocada pela carnalidade agora significa qualquer existência terrena em que sexo não é predação e violência. Sexo e assassinato lento se tornam sinônimos: uma proclamação presciente do século vinte, três anos antes que ele começasse.
O predador sexual é assassino, um parasita que mata a hospedeira através do sexo, drenando o sangue do seu corpo; Dracula dormia “caído como um sanguessuga imundo, exaurido em sua saciedade.” A verdadeira sexualidade – eterna, inescapável – é primitiva e animal, assassino-animal: “e quando ela arqueou seu pescoço, ela de fato lambeu seus lábios como um animal, até que pude ver à luz da lua a umidade brilhando em seus lábios escarlates e na vermelha língua quando encostou no afiado dente branco.” Os humanos são passivos, ficam a espera, femininos. Até mesmo a abordagem do vampiro – nesse caso, uma vampira mulher anônima, indo para cima de Jonathan Harker quando ele está preso no castelo do Dracula – é indescritivelmente excitante:
“Eu podia sentir o macio, arrepiante toque dos lábios na super sensitiva pele da minha garganta, e a rigidez de dois dentes afiados, apenas tocando e parando ali. Eu fechei meus olhos em um êxtase langoroso e esperei – esperei com o coração pulsando.”
A primeira vez de Mina com Dracula mostrou sua relutância, seu único momento de Vitorianismo – ou é isso resistência a estupro? “Eu fiquei parada e aguentei; isso foi tudo.” Mas logo depois, com o seu marido dormindo, Dracula toma Mina do seu lado:
“Com sua mão esquerda ele segurou a mão de Mina, mantendo ela longe, o braço tencionado; sua mão direita a puxou pela parte de trás do pescoço, empurrando seu rosto para baixo, para seu colo. O pijama branco dela ficou salpicado de sangue, e um filete magro escorreu pelo peito nu de Dracula, que aparecia através de seu robe entreaberto.”
Não é possível recusar o comando sexual de Dracula; a pessoa se torna carnívora; o sexo uma transformação permanente, fisiológica e espiritual, através da morte, e então com a morte, em uma absoluta e eterna luxuria. A luxuria é uma por sangue [bloodlust], sexo como assassinato. Mina sente o comando, e luta contra ele, sabendo-se contaminada por ele, “suja.” Lucy, a fêmea complacente, jamais poderia resistir – nem a um homem, nem a uma besta. Sua beleza virginal é sua feminilidade em vida; em morte aparente, sua beleza permanece intacta. Um funcionário da casa funerária comenta que ela “faz um belo cadáver, senhor. É um privilegio trabalhar nela. Não é muito dizer que ela dará bons créditos para o nosso estabelecimento!” Um dos seus pretendentes nota que “toda a graciosidade de Lucy voltou a ela na morte…Eu não podia crer que meus olhas estavam a olhar para um cadáver.” Depois de enterrada, ela começa sua busca por sangue, humanos para se alimentar. Ela molesta crianças. Um jornal noticia o desaparecimento de crianças, que, quando encontradas, haviam sido reviradas ou feridas no pescoço. As feridas parecem ter sido feitas por um rato ou pequeno cachorro…” A carnificina de sua sexualidade a transforma; ser sexuada transforma ela – “A doçura virou dureza, crueldade sem coração, e a pureza virou uma imprudência voluptuosa.” Flagrada pelos homens a morder a garganta de uma criança, se alimentado dela, estava Lucy – “os olhos de Lucy embaçados e cheios do fogo do inferno, ao invés das puras e gentis orbitas que conhecíamos.” Quando eles vão destruí-la em seu caixão eles a encontram “como um pesadelo de Lucy… os dentes pontudos, as machas de sangue, a boca voluptuosa… toda a aparência carnal e sem espirito, um escarnio diabólico da doce pureza de Lucy.” Sua maldade a fez horrível e sua maldade é sexo: mas todo o sexo menos cruel que esse sexo não conta como sensação ou experiência. A virgindade de Lucy não teria mudado com o casamento humano; até mesmo submissão sexual ou desejo sensual na escala humana não seriam registrados como sexo aqui. Se é inocente se sexo não assassinato.
Em Dracula, vampirismo é – sendo extremamente prosaica – uma metáfora para intercurso: o grande apetite de usar e ser usado; a aniquilação do orgasmo; a submissão da mulher ao grande caçador; a obsessão da luxuria, que destrói ambas a paz interna e qualquer limite moral; a vitimização senso-comum daquela que é tomada; o grande desejo, nunca saciado e cruelmente impessoal. O ato em sangue é literalmente o cerne da metáfora do intercurso como a origem da vida: reprodução; sangue como nutrição; o feto se alimentando do sangue da mulher no útero. E com a grande ferida, a vagina, movida para o pescoço, vemos como uma sombra, a ressonância assustadora da vagina ensanguentada, na menstruação, no parto; sangrando quando se é virgem e é fodida. Enquanto vivas as mulheres são virgens na longa duração da primeira foda, a drenagem de seu sangue ao passar do tempo, um longo, prolongado ato sexual de penetração e violação; depois da morte, elas tornam-se carnais, sendo verdadeiramente sexuadas. As mulheres são transformadas em predadoras, grandes parasitas; e resumindo, enquanto vivas elas não sentiram ou conheceram desejo ou fizeram sexo, sido tocadas de uma forma que transforma a existência – elas não foram fodidas. Como humanas, elas começam a aprender sexo por morrer. E os homens, os pretendentes humanos e maridos, não podem fazer a boa foda; ao invés disso, eles recebem a nova forma de sexo, não foder mas assistir – assistir as mulheres morrerem. E com a grande ferida, a vagina, movida para a garganta, temos o prenuncio do que iria se tornar uma prática comum de violência sexual hoje: estupro oral, estocar fundo na garganta como se fosse o genital feminino, uma vagina, da maneira mostrada no filme pornográfico Deep Throat. Mas Dracula, o livro, o mito, vai além da metáfora em sua intuitiva representação do século a vir, preenchido de horror sexual: a garganta como genital feminino; sexo e morte como sinônimos; assassinato como um ato sexual; morrer vagarosamente como sensualidade; homens assistindo essa morte vagarosa, e o assistir é sexual; mutilação do corpo feminino como heroísmo e aventura masculina; luxuria insensível, cruel, predatória como a única forma possivel de desejo sexual; o intercurso em si precisando ser com sangue, de alguém, em algum lugar, para contar como um ato sexual em mundo excitado por sadomasoquismo, entediado com o enfadonho tud tud tud da foda literal. A nova virgindade está emergindo, um pesadelo do século vinte: não importa o quanto fodemos, não importa quantas vezes, com qual intensidade ou obsessão ou compromisso ou convicção (acreditando que sexo é liberdade) ou paixão ou abandono promiscuo, não importa com qual regularidade ou onde ou quando ou como, nós somos virgens, inocentes, que não sabem de nada, intocadas, a não ser que sangue seja derramado – o nosso; não o sangue da primeira vez; o sangue de todas as vezes; essa elegante sanguinolencia de uma suposta liberdade sexual exercida em alienação, crueldade e desespero. Trivial e decadente; orgulhosa; boba; mentirosa; somos livres.

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Virgindade – Andrea Dworkin (Parte II)

Sta. Catarina era a santa patrona das garotas solteiras e também de filósofas e estudantes. Ela era famosa por sua erudição, uma das raras e grandes mulheres de conhecimento. Seu pai, um rei, queria que ela casasse, mas ela sempre rejeitava os pretendentes. Uma noite ela sonhou que Maria, segurando Jesus, a perguntou se ela queria ser a noiva dele. Ela disse sim, mas Jesus a recusou, pois ela não era cristã. Ela foi batizada; na mesma noite Jesus, cercado por anjos e santos, colocou um anel de casamento em sua mão. Quando o Imperador Maxentius ordenou que todos os cristãos de Alexandria fossem mortos, Catarina foi até ele para defender sua fé. O Imperador a fez debater contra cinquenta homens estudiosos, habilidosos oradores; ela venceu cada um dos debates e os cinquenta homens foram queimados. O Imperador a queria como amante e prometeu que sua imagem seria venerada em todos os lugares se ela fizesse um sacrifício aos deuses. Ela recusou, por Jesus e sua fé. O Imperador a colocou na prisão e fez com que fosse terrivelmente torturada. A Roda de Catarina (The Catherine wheel), um instrumento de tortura, foi inventada com o propósito de eviscerar e matar ela; mas um ano destruiu a roda. Catarina foi morta por decapitação.
Sta. Margaret era a santa patrona dos camponeses e das mulheres em trabalho de parto, o último não por ter tido filhas, mas porque ela foi engolida pelo diabo na forma de um dragão, e sua pureza e resistência eram tão grandes que ele teve que cuspi-la de volta inteira e sem machucados. Vista como um miraculoso renascimento sem ferimentos, ela se tornou um símbolo de esperança na agonia da vida-e-morte do parto. O pai de Margaret era um sacerdote pagão, mas ela foi secretamente batizada. Ela cuidava de animais nos campos. O governador, Olybrius, a viu, a quis e fez com que fosse levada até ele. Ela o recusou e declarou sua fé. Foi encarcerada, açoitada e terrivelmente torturada. Na prisão ela foi engolida pelo dragão; e quando triunfou sobre ele, o diabo a confrontou de novo, dessa vez na forma de um simpático homem que a disse que ela já havia sofrido muito:
“Mas ela pegou seus cabelos, o jogou no chão, e colocando o pé em sua cabeça, exclamou:
‘Trema, grande inimigo. Você agora está sob os pés de uma mulher!’”
Ela foi queimada, tochas colocadas em diferentes partes de seu corpo, mas ela agiu como se não sentisse nenhuma dor. Ela foi morta por decapitação.
As lendas de ambas as santas eram muito conhecidas na época e ambiente de Joana, histórias comuns a todos, não anedotas misteriosas para os estudiosos. Os detalhes das narrativas eram tão familiares que uma pessoa má e estupida era referida, na fala comum, como um “Olybrius,” Mulheres eram nomeadas em homenagem às santas e seus dias eram celebrados. Essas santas eram figuras de adoração em massa em histórias de aventura, romance e heroísmo. Existia uma imagética elaborada e épica nas igrejas para comunicar visualmente o drama e a escala de sua bravura e martírio. Os artefatos e pinturas nas igrejas contavam as histórias das santas e seu heroísmo e sofrimento em imagens gráficas e dramáticas; uma iconografia ousada, articulada e hipnotizante não rivalizada em feito até a invenção da tela gigante no cinema. Sta. Catarina era pintada com a roda nomeada em seu nome, Sta. Margareth com um dragão, ambas com espadas. Elas eram representadas com espadas, pois haviam sido decapitadas, mas o resumo das narrativas em uma imagem marcial exprimiam militância, não apenas martírio. Cada uma enfrentou algo que se equipara a uma guerra de estado contra sua pessoa: todo o poder do estado – militar, físico, sádico – executado contra sua vontade e sua resistência e os limites de um corpo frágil porque humano. Isso vai além da ambição temerosa de hoje: uma mulher luta contra um estuprador. Cada uma dessas mulheres lutou contra um estuprador que usou o aparato do estado – prisão e tortura – para a destruir como se ela fosse uma nação inimiga. Cada uma recusou a apropriação masculina de seu corpo para sexo, o direito que é a premissa básica da dominação masculina; cada uma recusou um homem em que poder masculino e poder de estado estavam unidos, um protótipo do poder másculo sobre as mulheres; e cada uma via a integridade de seu corpo físico como sinônimo da pureza de sua fé, de seu propósito, de sua auto-determinação, de era sua honra. Essa não era uma virgindade pueril definida pelo medo da efeminação. Essa era uma virgindade rebelde harmoniosa aos valores mais profundos de resistência a qualquer despotismo politico.
Joana se identificava profundamente com essas mulheres; de fato, seu amor por essas santas é sua experiência adulta mais rica de irmandade ou identificação com mulheres. Elas eram suas vozes e irradiancias principais. Elas eram as vezes presenças tangíveis para ela, tanto que ela as beijava e tocava e abraçava:
“Questionada se já havia beijado ou abraçado Sta. Catarina ou Sta. Margaret,
Ela disse que havia abraçado ambas.
Questionada se elas cheiravam bem,
Ela respondeu: “Com certeza que sim.”
Questionada se as abraçando havia sentido quentura ou qualquer outra coisa,
Ela respondeu que não as podia abraçar sem senti-las e tocá-las.
Questionada sobre qual parte abraçara, a superior ou inferior,
Ela respondeu: “É mais certo abraça-las por cima do que por baixo.”

Na sociedade de Joana, era uma crença comum a realidade de tais visitas. Os Inquisidores não estavam perguntando: ela é louca? Pelo contrário, eles perguntavam: será isso o Diabo? Ao perguntar sobre o cheiro das santas, por exemplo, eles estavam muito provavelmente procurando por evidências de um cheiro sulfúrico, associado ao demônio. Essas santas eram reais para Joana; e tivesse Joana não sido uma criminosa politica – tivesse ela sido uma aliada da Inquisição – elas poderiam ter sido tanto reais quanto boas para a Igreja, assim como depois se tornaram quando ela foi santificada. Nos anos de suas vitórias, Catarina e Margaret a disseram o que fazer. Nos anos de suas derrotas e encarceramento, elas foram seu consolo. Tenham elas vindo a Joana literalmente, enviadas por Deus, como ela dizia; ou tenha ela as internalizado magnificamente, as ultrapassando em ambição, nas busca pelo seu desafio, na complexidade de sua resistência, e nas originais e engenhosas estratégias que criou para se colocar fora e além do alcance do desejo masculino que as aniquilou. Ela aprendeu com elas da forma que um gênio aprende: ela não as repetiu em forma ou conteúdo; ela inventou novas formas, novo conteúdo, uma resistência revolucionaria. Joana não morreu porque homens a desejavam; mas porque ela recusou o status, incluindo as armadilhas externas (roupas femininas), de alguém que poderia ser tão desejada. A virgindade era uma dimensão de sua estratégia total, um aspecto de sua rebelião; e, interessantemente, sua recusa a fazer sexo com um homem não era dogmática ou ideológica. Como Marina Warner aponta em seu livro sobre Joana, o nome pelo qual ela se referia e que era muito conhecido, La Pucelle (A Moça), “denota um tempo de passagem, não uma condição permanente” Seu próprio testemunho em julgamento parece confirmar essa visão:
“Questionada sobre se havia sido revelado a ela que se ela perdesse sua virgindade ela também perderia sua boa fortuna e as vozes não viriam mais a ela.
Ela disse: Isso não foi revelado a mim.
Questionada se acreditava que caso se casasse as vozes ainda virão até ela,
Ela respondeu: Eu não sei; e eu espero em Nosso Senhor.”
Houvesse Joana simplesmente aprendido um preceito da Igreja de cabeça ou desejado se alinhar a um código teológico de pureza sexual, ela teria defendido a virgindade como um estado sagrado de existência, um que a asseguraria por toda duração de sua vida. Em sua sociedade, virgindade era “um ideal exaltado pela poesia mais fina e aclamado em belos hinos em latim e canções de convento.” Era uma crença comum citada como fato pelas autoridades da Igreja com quem ela entrou em contato que “Deus havia revelado a virgens… aquilo que manteve escondido dos homens.” Ao contrário, para Joana – e Catarina e Margaret – virgindade era um elemento ativo de uma integridade auto-determinada, uma independência existencial, afirmada em escolha e fé minuto após minuto; não uma exclusão da vida mas um compromisso ativo com ela; perigoso e confrontante pois repudiava, ao invés de endossar, o poder masculino sobre as mulheres. Para as três mulheres, virgindade era “uma passagem, não uma condição permanente,” a precondição para uma preciosa, trágica passagem para a morte. Como rebelião, virgindade era um crime capital. Nenhuma mulher, no entanto, havia nunca se rebelado da forma como Joana D’arc, virgem, se rebelou.
Por ter encontrado uma forma de evitar o desejo masculino, a história de Joana ilumina o quanto o desejo masculino determina as possibilidade da mulher na vida; o quão longe, o quão rápido, onde, quando e como ela pode se mover; por quais meios; com quais atividades ela pode se envolver; como sua liberdade física é circunscrita; a total subjugação de sua forma física e a liberdade das coisas que homens querem dela.
Joana, diferente de Catarina e Margaret, viveu em um mundo Cristão: todos os soldados, ingleses, burgúndios, e franceses, eram cristãos. Virgens suspostamente deveriam ser veneradas pelos Cristãos; e com certeza, virgens Cristãs não deveriam ser estupradas. Mais do que uma lei, eclesiástica ou secular, magia assegurava a proibição: Deus e todos os santos e anjos estavam do lado da virgem; e logo, é certo, estava Maria com seu grande e sagrado poder. Maxentius e Olybrius não precisavam se preocupar com o significado divino da virgindade; mas soldados cristãos precisavam. E havia uma aura mágica criada pela fofoca e a lenda ao redor da pessoa de Joana, uma virgem desafiadora por ser soldada e uma soldada desafiadora por ser mulher. Virgem e soldada: ela era perigosa em ambas as instâncias. Um homem que desejasse fodê-la poderia ser morto: por magia ou combate. Ela não era fácil. As histórias sobre ela insistiam em sua vocação como soldada mas enfatizavam sua magia letal como virgem. Por exemplo, uma vez ela foi cumprimentada por um soldado que a reconheceu como a La Pucelle. Ele resmungou para um companheiro: “Se eu apenas conseguisse tomar ela por uma noite, por Deus, ela não seria uma virgem por muito mais tempo.” Joana ouviu e respondeu: “Você zomba de Deus e logo deve morrer.” Em menos de uma hora, o soldado morreu afogado.
O soldado sabia que Joana era genitalmente fêmea e, portanto, socialmente arrogante em sua castidade; ele queria foder ela para derrubá-la, colocá-la em seu lugar, usar ela pelo que ela era. A compreensão dele do estado dela era apropriadamente metafisica. Ela é; logo ela é fêmea, carnal, acessível. Esse é a priori o substrato da realidade da supremacia masculina; mas isso é encoberto pela ideologia e uma psicologia barroca do desejo masculino. Desejo masculino sendo apresentado como uma resposta à beleza feminina. É dogmaticamente mantido, na ideologia, que homens fodem mulheres porque mulheres atraem, são sensuais, são bonitas, possuem alguma dimensão de beleza ou graça, não importa se toscas ou elegantes, isso causa o desejo. As acabadas prostitutas drogadas das nossas ruas contemporâneas, que quantitativamente sofrem o trabalho pesado da foda nessa sociedade ou as putas desdentadas da história que foram mais fodidas que as moças elegantes por todas as contas, são oportunamente invisíveis nas representações ideológicas de como, porque, quando, e sob quais condições homens fodem. A ideologia permite o fantasioso desenvolvimento de uma psicologia do desejo pessoal: o homem é complexo e interessante, um individuo único atraído por muitas manifestações da beleza em mulheres. Mas como Lenny Bruce notou: “Você coloca caras numa ilha deserta e eles vão fazer aquilo com a lama.” Homens se dignificam insistindo em uma correspondência entre foda e beleza, mas não existe nenhuma (veja Baudelaire); homens fodem fêmeas no senso metafisico. Porque a ideologia masculina tem autoridade como verdade, o desejo masculino é tido como um reconhecimento real ou como medida da beleza feminina, mesmo o desejo masculino sendo na verdade um reconhecimento sexual da fêmea como fêmea, fodendo a prova empírica de que ela é, logo ele pode usá-la. De acordo com a ideologia, então, onde não existe desejo, não existe beleza. Logo, Bernard Shaw pode escrever sobre Joana:
“Qualquer livro sobre Joana que comece descrevendo-a como bela pode de cara ser classificado como romance. Nenhum dos camaradas dela, na vila, na corte, no campo, até mesmo quando estavam se esforçando para agradar o rei elogiando-a, nunca disse que ela era bonita. Todos os homens quando falavam sobre isso, declaravam enfaticamente que ela não era atraente, em tal nível que parecia miraculoso, considerando que ela estava no furor da juventude, e não era nem feia, nem estranha, deformada, nem desagradável em sua pessoa.”
Mas não era isso que os homens diziam. Joana vivia em uma sociedade militar totalmente masculina. Ela dormia com seus companheiros soldados, “todos no feno juntos.” Alguns diziam “que nunca tinham sentido desejo por ela, isso é dizer que as vezes sentiam desejo carnal por ela (ils em avaient volonte charnel), no entanto nunca ousaram ceder a ele, e acreditavam que não era possível tentar…” A vezes eles conversavam sobre sexo entre eles e ficavam excitados, mas quando a viam e ela se aproximava, “eles não podiam mais falar sobre tais coisas e abruptamente cessavam seus arrebatamentos carnais” Questionados por um Gobert Thibault, os soldados que dormiam com Joana disseram “que eles nunca haviam sentido desejo carnal no momento em que a viam.” E o Duque de Alençon disse: “As vezes no exercito eu me deitava para dormir com Joana e os soldados, todos juntos no feno (a la paillade), e as vezes eu via Joana se preparar para a noite e as vezes eu olhava para os seus seios que eram lindos, ainda assim nunca senti desejo carnal por ela.”
Dois temas são discerníveis: não existia nenhum desejo carnal mesmo na presença de uma bela mulher por definição – seus belos seios nus; ou, havia um medo de falhar, uma convicção de que “não era possível tentar.” Se juntando isso com o sentido de que era fisicamente impossível fazê-lo; seu corpo era inexpugnável. Sua presença física causava uma paralisia do desejo ou casava medo, talvez de impotência ou castração ou punição – “não era possível tentar.” [itálicos da autora] Vivendo entre homens, dormindo “todos juntos no feno”, sendo vista com os seios nus, Joana realizou uma fuga da condição feminina mais miraculosa do que qualquer vitória militar: ela tinha completa liberdade física, especialmente liberdade de movimento – na terra, fora de casa, entre homens. Ela possuía essa liberdade, pois os homens não sentiam nenhum desejo por ela ou acreditavam que “não era possível tentar.” Ela alcançou uma fuga empiricamente bem sucedida de uma definição metafisica da fêmea que é socialmente real, socialmente absoluta, e intrinsecamente coerciva. Ela não teve que viver a mercê do desejo masculino, e então ela era livre, uma qualidade rara e notável de liberdade – lugar comum para os homens, literalmente inalcançável para as mulheres. Ela tinha desprezo pelas mulheres que seguiam os soldados como consortes ou prostitutas. Ela expressava esse desprezo na forma de agressão física contra essas mulheres – fisicamente as enxotando para longe dos soldados e, ou pelo menos em uma ocasião, empunhando a espada contra uma mulher que estava, com certeza, desarmada. Essas mulheres eram lições objetivas, a imagem viva do tamanho do rebaixamento, se comparado ao status isentos de Joana, que significavam suas vidas amarradas por todos os lados pela dominação restringente de homens sexuados.
Joana escolheu o status dos homens, pois era nele que estava a liberdade; escolhendo esse status, sua companhia, ela estava fadada a desprezar as mulheres. Ela também odiava xingamentos, o discurso que mais jogava em sua cara o estigma absoluto de ser fêmea – o estigma associado à fisiologia de ser mulher, as funções de ser uma mulher, as percepções comuns do que uma mulher é e do que ela vale. Os soldados não xingavam perto dela, pois sua desaprovação era muito visceral, muito intensa, muito absoluta. Essas reais e profundas antipatias – em direção a mulheres perdidas e palavrões – significou para os Cristão que a reabilitaram que ela havia sido pura e boa em um sentindo moralista; esses eram os estratagemas mais assimiláveis de sua fuga de ser definida como fêmea. Sua intratável identificação masculina, expressada não na usual submissão feminina ao macho, mas em uma tentativa igualitária de unir-se a ele, era central na sua busca pela liberdade. Sob o patriarcado, homens possuem liberdade porque são homens. Desejar liberdade é não só desejar o que homens possuem, mas o que homens são. Isso é identificação masculina como militância e não como submissão feminina; é desafiadora, complexa. Deseja-se o que o homem possui – especialmente integridade física (liberdade de movimento, liberdade da dominação física); e para ter o que os homens têm precisa-se ser o que o homem é. A tomada inconsciente e impenitente de um papel masculino (tanto marcial como heroico) foi o crime contra a supremacia masculina que custou sua vida. Ela foi assassinada pela liberdade que tomou, pelo status que usurpou, seu desafio ao determinismo do gênero. Ao repudiar o status feminino, ela repudiou uma vida de ser mantida refém pelo desejo sexual masculino. Ela se tornou uma exilada do gênero com uma vocação e roupas masculinas, tal vestimenta especialmente um ultraje e eventualmente um crime capital.
Essencialmente vista como uma travesti por acadêmicos e artistas que vieram atrás dela e a tomaram como um assunto, a rebeldia de Joana, sua rebelião, é trivializada como um fetiche sexual, mais estilo que substância, no máximo um franzido interessante na tragédia psicossexual de uma garota que queria ser um menino e acabou se dando mal. A instabilidade de Joana, é sugerido, era tão grande que preferiu cometer suicídio a usar roupas femininas; ela, a vitima da Inquisição, torna-se a própria executora. Românticos, especialmente diretores de cinema, parecem enxergar as roupas masculinas como uma escolha estética, a beleza de sua androginia ressaltada pelo gracioso estilo de garoto [boylike look]. Nenhuma mulher pode querer liberdade e ter sua busca dignificada. As roupas tornavam sua vida de grandes aventuras e brilho marcial possível; ela precisava delas, uma espada, um cavalo, uma bandeira, um rei, uma causa, tudo isso ela conseguiu através de uma intransigência que é uma marca de genialidade. As roupas masculinas – o significante e o possibilitador, significando rebelião, permitindo ação – tornaram-se o emblema de sua distinta integridade para aqueles que a odiavam.
Suas roupas masculinas eram simbólicas e funcionais. Eram as roupas apropriadas para sua movimentação e prática. Protegiam sua integridade física tanto quanto a declaravam. Seu corpo estava fechado para fora e coberto; a região entre suas pernas era inacessível. De armadura, que ela vestia assim como os homens, ela estava duplamente inacessível, fechada: genitalmente privada. As roupas caracterizam sua virgindade como militância: hostil a homens que desejassem ela para sexo e hostil ao status feminino inteiramente. A Inquisição não honrou a virgindade de Joana: mal foi mencionada em seu julgamento, exceto por ela. A Inquisição não aceitou a virgindade de Joana como evidência do seu amor por Deus, como indisputavelmente a aceitaria se visse de uma roupagem feminina. Ao contrário, sua integridade física enfatizada pelas roupas repelia esses verdadeiros homens Cristãos – não soldados, mas padres e juízes de robes vaporosos, longos vestidos. Apesar de Joana ter sido examinada quando estava presa pelos burgúndios para ver se era virgem ou não, o tema virgindade foi evitado pelos Inquisidores. Uma virgem não poderia fazer um pacto com o demônio; mas Joana seria sentenciada como bruxa. Sua vestimenta masculina tornou-se o foco de uma obsessão sexual com ela: a despir dessas roupas tornou-se sinônimo de quebra-la literalmente e metaforicamente; tornando-a femininamente submissa. Na sua retratação, ela foi forçada a acusar a si mesma de vestir “roupas dissolutas, mal feitas e indecentes, contra a decência natural” Jean Massieu, que leu sua retratação em voz alta para ela antes que ela assinasse, lembra que “estipulou-se que no futuro ela não usaria mais roupas masculinas nem portaria armas, nem cabelo curto…”
De fato, é pouco provável que Joana fosse fisicamente virgem por causa de seu extremo atletismo decorrente do treinamento como soldada. É sabido que ela nunca menstruou, provavelmente pela mesma razão (Marina Warner sugeriu anorexia nervosa como a razão; a força física de Joana e sua disposição em vestir pesadas e grandes armaduras, em minha opinião, torna essa hipótese impossível). O exame manual e ocular por mulheres provavelmente não conseguiria discernir a presença ou ausência de hímen. As mulheres declararam que Joana era virgem pois acreditavam que ela era quem ela dizia ser, Joana a Moça, enviada por Deus para ajudar seu rei, uma soldada; claramente não uma prostituta que corria com soldados. Os Inquisidores ignoraram toda a questão da virgindade de qualquer forma: as roupas masculinas eram o crime sexual, e a Inquisição sempre pegava a mulher pelo seu crime sexual. Havia um lugar para Joana na teoria abstrata da Igreja ortodoxa. St. Ambrósio escrevera:
“Aquela que não crê, devera ser designada pelo nome de seu sexo, ao passo que aquela que crê progredira para perfeita hombridade, na medida da maturidade de Cristo.”
E São Jerome, um escritor tanto de virgindade como de gênero, promete que quando uma mulher:
“deseja servir a Cristo mais do que ao mundo, então ela deixará de ser mulher e será chamada homem.”
Mas os Inquisidores eram empiristas com uma intuição sexual aguda. Quando mulheres se rebelavam contra a Igreja através do sexo, os Inquisidores as matavam por isso. Quando essa mulher se rebelou através da vestimenta a Inquisição a matou por isso. Virgindade não poderia comprar sua vida, porque a questão nunca foi – e não o é hoje – como fazer sexo ou como não fazer sexo; a questão é a conformidade com o status inferior. A base biológica da supremacia masculina foi ameaçada pela autenticidade de Joana, o brilhantismo do que só poderia ser um jogo de mascaras, um truque, o trabalho do diabo; e essa base biológica, uma vez ameaçada, deveria ser purificada – se não pôde ser matéria de modificação ou reforma ou exceção. A intransigência de Joana confirmou a percepção da Inquisição de que as vestes masculinas eram centrais para a vitalidade de sua imagem e de sua resistência:

“Quando a perguntaram se a sua fala, de que retomaria vestes femininas se eles a deixassem ir, satisfazia a Deus,

Ela respondeu que se a deixassem ir em vestes femininas, ela assim que possível colocaria vestes masculinas e faria como Nosso Senhor havia comandado. Ela não iria, de forma alguma, fazer a promessa de que não iria portar armas novamente e se vestir de acordo com a vontade de Nosso Senhor.”

Ela não entregaria nas mãos dos padres seu relacionamento direto com Deus; ela não desistiria de seu relacionamento direto com a vontade de Deus em favor da Igreja; ela não abdicaria de sua consciência autônoma em favor dos regulamentos da Igreja ou das práticas da Igreja ou das politicas da Igreja. Bernard Shaw escreve sobre seu “Protestantismo inconsciente”. Porém, sua rebelião era mais simples e mais profunda do que a de Lutero, pois os direitos que ela exigia – direto à autonomia de sua consciência e de sua relação com Deus – estavam enraizados em um direto à autonomia e integridade física que é fundamental, mas não havia sido reclamado por nenhuma outra mulher, o direito à integridade física sendo essencial para liberdade pessoal e auto-determinação. Nenhuma mulher possuía esse direito absolutamente. Era um direito contingente, dependendo, na melhor das hipóteses, de uma conformação com os significados de ser virgem determinados por homens e, simultaneamente, não cair nas mãos de um estuprador: o pedestal era uma cela; o desejo sexual masculino continuava a ser uma ferramenta de tirania. O direito a integridade física nunca foi articulado como um direito, e para as mulheres mal existia como uma possibilidade; como Joana ousou imaginá-lo, ainda mais, o conquistar para si por tanto tempo? Sem o direito à integridade e privacidade física, não poderia existir uma consciência autônoma, e nenhuma relação pessoal com Deus, nenhuma forma de vida que fosse por si escolhida, atualizada e sustentada. Joana morreu por esse direito à integridade e privacidade física do qual outros direitos poderiam ser derivados, e sem o qual outros direitos eram insignificantes – e nesse sentido, ela morreu por e em nome de todas as mulheres.
As vestes masculinas representavam esse direito tanto para ela quanto para os Inquisidores. Eles a queriam despida, violada, submissa; sem suas roupas masculinas, o equivalente a estar nua, frágil, acessível, fêmea. Ela pediu para que, caso fosse considerada culpada, a permitissem vestir um longo vestido e capuz para a execução: “Questionada sobre o porquê, já que ela havia dito que se vestia com roupas masculinas pela vontade de Deus, ela pedia para usar um vestido feminino em suas últimas horas, Ela respondeu: ‘É suficiente que seja longo.” Antecipando a humilhação de ser exposta publicamente, a vulnerabilidade, a vergonha, ela queria a privacidade de um corpo vestido da cabeça aos pés. Roupas femininas ou não, era privacidade o que ela queria.
Diversas vezes ela pediu aos Inquisidores que a deixassem ver a Missa, e eles tentavam a fazer prometer que em troca ela pararia de usar vestes masculinas. Ela articula ainda mais: “Façam-me um longo vestido, que vá até o chão, sem cauda, e me deem ele para que eu vá à Missa, e quando eu retornar vestirei novamente as roupas que visto agora.” ”Sem cauda” significa sem feminilidade – ornamentação feminina permitindo invasão pelo olhar, pelo toque, em pensamento. Ela não queria roupas sexualizadas; ela queria roupas que fossem barreiras à invasão pelo olhar, pelo toque, em pensamento.
Depois de sua retratação, Joana foi levada de volta a cela da prisão vestida com roupas femininas, e foi acorrentada novamente. Soldados ingleses, machos, permaneciam na cela dia e noite para guarda-la. Sua virgindade, se tinha qualquer significado, era agora vista como “a chave para sua força e poder; se roubassem dela isto, ela seria desarmada, o feitiço seria quebrado, ela descenderia ao nível comum das mulheres” Ela não possuía mais o poder de uma bruxa, tendo se retratado; e ela não era mais uma soldada, vestida com roupas femininas. Acorrentada e fêmea, os homens não tinham mais medo dela; e foi estupro, ou tentativa de estupro, ou estupro grupal, o que a fez voltar a vestir roupas masculinas e ir em direção a sua morte:
“Depois de Joana ter renunciado e abjurado e retomado as vestimentas masculinas, eu e muitos outros estávamos presentes quando Joana desculpou-se por ter vestido novamente roupas masculinas, dizendo e afirmando publicamente que os ingleses a fizeram muito mal e praticaram violência contra ela na prisão quando ela estava vestida com roupas femininas. E, de fato, eu a vi chorando, sua face coberta de lágrimas, desfigurada e revoltada…”
Um escritor disse que ela havia sido “brutalmente espancada” e seu confessor “ouviu dos próprios lábios de Joana que um grande lorde inglês entrou em sua cela e tentou toma-la a força. Essa foi a causa, ela disse, de ter voltado a usar vestes masculinas.” O lorde inglês, disse Michelet, “havia bravamente tentado estuprar uma garota acorrentada; e quando não obteve sucesso, ele a encheu de socos.” Ela descreveu “guardas que ficam sempre se jogando em mim tentando me violar.” E Pierre Cusquel, um pedreiro, que havia falado com Joana duas vezes, disse que
“Ela não vestira e não estava vestindo os trajes masculinos a não ser pelo desejo de não se expor aos guardas com quem convivia. Uma vez, na prisão, eu a perguntei por que vestia esses trajes masculinos e foi isso que ela me respondeu.”
Ela foi atacada e espancada, pelo menos uma vez. É inconcebível que ela não tenha sido estuprada durante o período em que vestia roupas femininas se os homens, ou um homem, um lorde inglês, estivesse determinado a estupra-la. Ela estava acorrentada, não mais fisicamente forte; não mais uma bruxa, não mais uma soldada; vestida como mulher. Eles estavam armados. Qualquer mulher que pode ser violentamente espancada pode ser estuprada. Ela não foi a grande travesti, incapaz de ficar sem vestes masculinas por alguns dias. Ela foi uma mulher que foi estuprada e espancada e não se importou de morrer – essa abnegação é uma consequência de ter sofrido um estupro, não travestismo. Ela vestiu trajes masculinos novamente para proteger seu corpo, em choque, talvez desejando morrer , mas provavelmente não entendendo o perigo iminente em vesti-las, não se importando quando avisada (e claramente, como já foi muitas vezes alegado, tendo sido incitada pelos soldados ou Inquisidores que deixavam roupas masculinas no chão da cela para ela). Ela nunca admitiu ter sido estuprada – admitir uma tentativa já era humilhante demais e razão suficiente para ajudarem-na, caso os juízes alguma vez houvessem desejado fazê-lo – e ser virgem ainda era a única chance que ela possuía de obter misericórdia. Uma vez estuprada, ela seria nada, ninguém, rebaixada, “ao nível comum das mulheres,” precisamente o que a Inquisição queria. Depois de sua fuga heroica da feminilidade, ela foi feita duplamente fêmea: estuprada e queimada. A Inquisição, sentenciando-a a morte por vestir roupas masculinas novamente, disse: “de novo e de novo você tem recaído, como um cachorro que retorna ao seu vômito, e como Nós temos evidenciado com muito pesar.” Ela ouvira suas vozes novamente na mesma época, Sta. Catarina e Sta. Margaret, ambas mártires por resistirem ao estupro. A Inquisição considerou as vozes demoníacas e declararam Joana como “uma herética”, “um órgão infecto”. Ela morreu rapidamente, e quando ela estava morta e suas roupas haviam queimado, “o fogo foi diminuído, e seu corpo nu e todos os segredos que poderiam e deveriam pertencer a uma mulher foram exibidos para todas as pessoas, para que não restassem dúvidas nas mentes das pessoas…” Depois de sua morte, então, ela se tornou fêmea uma terceira vez: seu corpo nu, incluindo sua genitália, exibidos para todas as pessoas. O fogo foi reaceso, e ela “logo foi queimada, pele e osso reduzidos a cinzas.”

(CONTINUA)

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Virgindade – Andrea Dworkin (Parte I)

Virgindade é o 6º capitulo do livro Intercourse. O livro em inglês pode ser encontrado aqui. O capitulo é longo, vou disponibilizar em PDF a tradução completa logo mais. Aqui na bloga dividirei em umas 5 partes, é beeem longo mesmo.

Joana D’arc, soldada, estrategista militar, virgem, nasceu em Domremy, uma paróquia da província de Lorraine, por volta de 1412 (talvez no dia 6 de Janeiro). Ela era mulher, iletrada, camponesa. Em Rouen em 1431, com 19 anos, ela foi julgada e queimada como bruxa. Na época de sua prisão (ela foi aprisionada durante uma ação militar) e encarceramento em 1430, ela já havia afugentado os ingleses de boa parte do território francês e estabelecido um momentum militar e nacionalista propicio para eventual expulsão deles do solo francês; e ela também havia assegurado a coroação de Charles VII como Rei da França, criando assim um chefe de estado para que a nação pudesse emergir ao seu redor. Sua força de vontade, sua visão e sua perspicácia militar proveram o ímpeto e o trabalho de base para o nascimento da nação-estado francesa, que não existia até então; e ela foi, para bem ou mal, a primeira nacionalista francesa, libertadora militar de um país ocupado que ainda não se reconhecia como nação tão claramente como ela já, militantemente, reconhecia – como uma unidade politica e cultural que devia repelir dominação estrangeira. Os ingleses, usando a maquinaria da Inquisição, a fizeram ser condenada e assassinada; a Igreja Católica fez o trabalho sujo. Ainda assim, nenhum invasor, incluindo os nazistas, conseguiram destruir o que ela criou: a França. Em seu julgamento:

 

“Quando questionada, por que ela ao invés de outros,

Ela respondeu: Satisfez a Deus que assim fosse, que por uma

simples moça os inimigos do Rei fossem expulsos.*

 

A Igreja, em um movimento de remorso não muito crível, emitiu uma série de desculpas por tê-la queimado na fogueira. Em 1456, ela foi “reabilitada” por um decreto papal – a Igreja, basicamente, admitiu que ela não fora uma bruxa. Charles precisava que o nome dela ficasse limpo após vencer, pois ela teve proeminência em sua coroação*; a Igreja cooperou com ele da mesma forma que havia colaborado com os ingleses quando mataram Joana. Em 1869, o pedido pela canonização de Joana foi encaminhado ao Vaticano: uma reparação que demorou mais de 400 anos. Em 1903, Joana foi designada Venerável. Em 1909 foi beatificada. Em 1920 se tornou Santa Joana. A Igreja que a matou agora poderia a identificar como uma mártir; mas para as mulheres inspiradas pela sua lenda, ela é uma luminosa heroína marcial que possuía gênio e coragem, um emblema das possibilidades e potencialidades continuamente proibidas, obliteradas, ou negadas pela rígida tirania dos papéis sexuais ou pela humilhação constante em ser uma cidadã de segunda classe. Mulheres têm muitas mártires, muitas valorosas pacifistas, lembradas ou não; mas poucas heroínas que fizeram guerra. Nós sabemos como morrer, e também como não matar; Joana inexplicavelmente sabia como fazer guerra. Em seu julgamento ela insistiu que nunca havia matado no campo de batalha, o que é improvável pois os combates eram mão-a-mão; porém ela era conhecida entre os seus próprios homens por se posicionar contra as práticas correntes de sadismo no campo de batalha. É difícil acreditar que ela não matou ninguém, mas tendo-o feito ou não, ela foi uma libertária marcial exemplar – quase única na iconografia da história da mulher europeia, essa domada e incompreensível criatura pacifica. A história de Joana não é particularmente feminina, a não ser em sua morte, em que morreu, como outras nove milhões de mulheres, em chamas, condenada pela Inquisição por bruxaria, heresia e feitiçaria. Precisamente por ter sido uma heroína, com uma biografia que descaradamente e sem precedentes viola as limitações de ser mulher, até o terrível sofrimento de sua morte, sua história, valorosa e trágica, é politica e não mágica; mítica porquê ela existiu, foi real, não porquê sua imagem foi alargada no decorrer dos séculos. Sua virgindade não foi uma expressão de aspectos de sua feminilidade ou de sua preciosidade como mulher, apesar da existência de uma adoração da virgindade como ideal feminino. Ela era conhecida como Joana a Moça (Joan the Maid) ou, simplesmente, A Moça (“La Pucelle”). Sua reputação, sua declaração, a precediam, estabeleciam sua intenção e seus termos; não em um contexto de santidade ou da mulher ideal, mas no contexto de estar travando uma guerra. Sua virgindade era um autoconsciente e militante repudio ao destino comum das mulheres, intrínseco ao seu baixo status, que, no passado assim como hoje, tinha algo a ver com ser fodida. Joana queria ser virtuosa no sentindo antigo, antes dos Cristãos o apropriarem: ser virtuosa significava ser valente, valorosa. Ela incarnava a virtude em seu sentido original: força ou “masculinidade”. Sua virgindade era um elemento essencial de sua virilidade, de sua autonomia e de sua rebelde e intransigente auto-definição. Virgindade era liberdade do sentindo real de ser mulher, não era apenas um outro estilo de ser mulher. Ser mulher significava bordas minúsculas e possibilidades degradadas; inferioridade social e subordinação sexual; obediência a homens; rendição à força e violência masculina; ser sexualmente acessível aos homens ou ser excluída do mundo; e insignificância civil. Diferente das virgens femininas que aceitavam a subordinação social enquanto simultaneamente se isentavam do sexo em que ela estava baseada, Joana rejeitava o status e o sexo como uma coisa só – sinônimos empíricos: status civil inferior e ser fodida eram indistinguíveis um do outro. Ela se recusava a ser fodida e recusava insignificância civil: era uma única recusa; a rejeição do sentindo social de ser mulher inteiramente, nenhuma parte do feminino desculpada e salva. Sua virgindade era a renuncia radical da inexistência social enraizada na prática sexual. Ela se recusava a ser mulher. Como ela disse em seu julgamento, não docilmente: “E sobre deveres femininos, ela disse que tinham mulheres suficientes para fazê-los.” Ela era a terceira filha dos fazendeiros Jacques Dare ( ou Tart ou D’arc) e Isabelle Romee (um sobrenome geralmente usado por quem havia feito peregrinação a Roma, de acordo com Michelet). Ela tinha três irmãos e vários padrinhos e madrinhas. Ela aprendeu sua fé e orações de sua mãe: “Ninguém ensinou-me minhas crenças, a não ser minha mãe.” Ela também aprendeu e fez trabalhos femininos: costurar, fiar e trabalho doméstico. Em seu julgamento, ela se gabou sobre a excelência de sua costura e fiação: “quanto a fiar e costurar eu era melhor do que qualquer mulher em Rouen.” Ela também lavrava, plantava e cuidada de animais nos campos. Ela foi devota desde a infância; frequentou a igreja e a confissão. Seu pai havia sonhado que ela fugiria com soldados e então seus pais “(a) mantiveram por perto e em grande sujeição…” Seu pai disse aos seus irmão que era melhor que a afogassem do que a deixassem fugir com os soldados.

 

Ela tinha treze anos quando ouviu vozes pela primeira vez; e foi ai que ela “prometeu que manteria sua virgindade até onde satisfizesse a Deus…” Ela ouvia a voz de São Miguel, o via, via anjos e luzes: “Eu ouvia a voz do lado direito, em direção à igreja; e raramente eu a ouvia sem uma luminosidade.” Ela ouvia essa voz e as vozes de duas santas mulheres, que se tornaram sua inspiração, muitas vezes por semana. As vozes a disseram para ir à igreja, praticar boa conduta, partir de sua casa e ir pra França, e não contar nada disso para seu pai. A disseram que ela libertaria a cidade de Orleans dos ingleses, e também a quem ela deveria pedir equipamentos, homens e ajuda para se aproximar do rei: “E eu, eu respondi que eu era uma pobre garota que não sabia cavalgar ou liderar uma guerra.”

 

Seu pai tentou força-la a se casar e com apenas dezesseis anos ela publicamente o desafiou. O homem com quem deveria se casar a processou por quebra de promessa, uma promessa de casamento tendo a força de um contrato vinculativo na Idade Média. Joana se defendeu em corte contra a acusação e ganhou.

 

Foi em 1429, com dezessete anos, que Joana fugiu da casa e da autoridade do pai. As vozes a disseram que ela deveria encontrar Robert de Baudricourt, que ele a levaria até Charles. Ela partiu de Domremy sabendo que era pra sempre, enganando seus pais. Ela foi até um tio e o convenceu a levá-la para Vancouleurs, onde sabia que encontraria Baudricourt;

 

“Mesmo nunca tendo o visto, pelas minhas vozes eu conhecia esse Robert, pois a voz contou-me quem era ele. Eu disse a esse mesmo Robert que eu deveria ir à França. Esse Robert duas vezes se recusou e me expulsou.”

 

Ela literalmente o cercou duas vezes, por longos períodos de tempo; até que ele a enviou em direção ao rei, escoltada por soldados armados. Ele a deu uma espada e o povo de Vaucouleurs forneceu dinheiro para que obtivesse um cavalo e equipamentos. Ela chegara em Vaucouleurs usando um vestido vermelho de camponesa feito de material rude; partiu vestida como um homem, para nunca mais por sua livre e espontânea vontade se vestir com roupas de mulher novamente. Em seu julgamento, importunada pela questão de suas vestes masculinas, ela se recusou a render-se. Era, ela disse,

 

“uma questão sem importância; e que ela não havia feito essa escolha pelo conselho de homem vivo algum; e que ela não havia escolhido essa vestimenta e nenhuma outra coisa a não ser pelo comando de Nosso Senhor e dos anjos.”

 

De acordo com a história da época, Joana adentrou no cômodo do rei, que estava lotado de homens vestidos mais finamente do que ele; mas Joana soube quem ele era e o interpelou imediatamente como seu soberano: “ela se curvou em reverência como é de costume em frente a reis, como se ela houvesse sido educada na corte durante toda a vida.” Ele, então, negou ser o rei e apontou para outro homem: “Ao que ela respondeu: ‘É você quem é o rei, e nenhum outro; Eu o conheço bem.” Ela então contou ao rei que poria um fim ao cerco de Orleans e o faria ser coroado em Rheims.

O rei a mandou para ser examinada pelo clero, teólogos e eruditos acerca de sua fé. Ela foi fisicamente examinada por mulheres para que confirmassem se era, como ela alegava, uma virgem. Era uma crença comum que o diabo não fazia pactos com uma virgem; dessa forma, a virgindade colocaria Joana do lado de Deus, tornando aceitável para Charles aceitá-la. Seus interrogadores foram convencidos sobre sua autenticidade. Joana, a seguir, pediu a Charles a espada de Sta. Catarina de Fierbois, a patrona dos criminosos fugitivos e prisioneiros de guerra; a espada foi encontrada onde Joana havia indicado que estaria, em um santuário dedicado a Sta. Catarina, escondida atrás do altar, coberta de ferrugem que desapareceu quando esfregada; na espada encontravam-se cinco cruzes e os nomes de Jesus e Maria. Joana recebeu a espada e lutou com ela.

Ela ditou uma carta endereçada ao o rei inglês e ao Duque de Bedford, líder do exercito que ocupava Orleans, exigindo que os ingleses partissem: “e se vocês não o fizerem, vocês lembrarão disso pela razão de seus grandes sofrimentos.” No dia 28 de Abril, de 1429, a marcha para Orleans, liderada por Joana a Moça (Joan the Maid), começou. Em 29 de Abril, Joana entrou em Orleans em frente ao exercito. Em 8 de Março, os ingleses recuaram. Ela, então, liderou e venceu uma série de vitórias por um período de meses, assegurando para os franceses várias vilas e cidades e fazendo com que os ingleses retrocedessem. Joana, em seguida, convenceu Charles a ir a Rheims para ser coroado. Rheims era distante, o caminho passava por territórios ocupados pelos ingleses. Combate e fome quase fizeram os homens retrocederem, mas Joana persistiu em sua estratégia e persuasão; fazendo com que os ingleses abdicassem de ainda mais territórios. Charles tornou-se Rei da França em Rheims. Joana continuou lutando para o rei em muitas campanhas, incluindo um assalto que liderou em Paris: ele deu errado. No dia 23 de Maio, de 1430, com dezoito anos, ela foi capturada em Compiegne. Alguns dizem que soldados franceses que a invejavam bloquearam sua fuga. Foi sua coragem, de acordo com uma testemunha ocular inimiga, que a faz ser capturada. Os franceses estavam retrocedendo e Joana,

“(de acordo com) # (diferente da)* a natureza das mulheres, sofreu todo o impacto e aguentou muitas dores para salvar suas tropas, ficando para trás como capitã e a mais corajosa da tropa. E ali, a Fortuna permitiu que um fim fosse colocado a sua glória e que ela não mais lutasse; um arqueiro, um homem rude e um amargo, cheios de rancor por uma mulher sobre a qual muitos já haviam escutado e que devia ter derrubado (quebrado os ossos) de tantos homens valiosos, a puxaram para um canto pela gola de sua vestimenta dourada e a derrubaram do cavalo, jogando-a direto no chão; nunca encontrou ela resgate e socorro em seus homens, mesmo tendo eles tentado remonta-la no cavalo…”

Seus captores não eram os ingleses, mas seus aliados, os Burgúndios, vassalos do Duque da Burgúndia. Era costumes na época pedir resgate pelos prisioneiros, portanto Joana poderia ter sido libertada se Charles tivesse pagado o resgate. Ele nunca tentou libertá-la. O Rei da Inglaterra, por outro lado, a queria o suficiente para pagar por ela. Ele exigiu que ela fosse entregue aos ingleses, mas seus captores não concordaram, talvez inquietados pela sua lenda e virgindade. Os ingleses então convenceram o Bispo de Beauvais, Pierre Cauchon, a acusar de heresia. Em carta para Cauchon, que depois a processou, Henrique VI formulou as acusações contra ela em traços largos:

“É suficientemente notório e de conhecimento geral que por um período passado uma mulher que se denominava Jeanne de Pucelle, abandonando o vestido e a roupagem do sexo feminino, algo contrário à lei divina e abominável em frente a Deus e proibido por todas as leis, vestindo uma armadura como a vestida por homens; causou e ocasionou assassinatos cruéis; e, como vem sendo dito, seduziu e abusou pessoas simples as fazendo acreditar que ela havia sido enviada por Deus e tinha conhecimento de Seus segredos sagrados…”

A Moça, um emblema vivo da resistência, era tão ameaçadora para os ingleses que eles de fato “queimaram viva uma mulher, pelo simples fato de ter falado bem sobre ela.”

Sucumbindo a uma pressão monumental, que incluiu uma ameaça de embargo, e então sendo bem pagos por cederem, os Burgúndios entregaram Joana para a Inquisição em Novembro de 1430. Contra as regras da própria Igreja, ela foi mantida em uma prisão civil, guardada por soldados ingleses, homens, que dormiam em sua cela. Ela era mantida acorrentada. Existem algumas evidências de que ela foi colocada em uma jaula de aço especial, pequena demais para que ficasse em pé; e existe também o relato de um ferreiro que diz ter construído a jaula de ferro “em que ela era mantida de pé, acorrentada pelo pescoço, pelas mãos e pelos pés…” [itálicos da autora] De acordo com as leis da Inquisição, ela tinha o direito de ficar em uma prisão da Igreja, guardada por mulheres.

Os Inquisidores, sem dúvida, sentiam-se justificados. Aprisionada pelos Burgúndios por quase sete meses, Joana tentou escapar duas vezes de duas prisões diferentes. Em sua segunda fuga, ela pulou da torre do castelo em que estava aprisionada. Durante seu julgamento, os Inquisidores tentaram transformar essa segunda fuga em uma tentativa de suicido ou mostrar que ela era uma bruxa e acreditava que poderia voar. Os Inquisidores tentaram extrair dela uma promessa de que não tentaria fugir novamente; a qual ela recusou, clamando que era seu direito tentar escapar.

No dia 9 de Janeiro de 1431, os juízes se reuniram para avaliar ela e o seu caso, um processo que durou mais de um mês, durante o qual Joana definhava na cadeia. Em 21 de Fevereiro, Joana foi trazida para corte aberta. Ela não teve nenhuma defesa em momento algum. De fato, qualquer um que tentasse a ajudar de qualquer forma era ameaçado ou punido. Um membro do clero, permitindo que Joana fizesse o sinal da cruz em uma capela no caminho para a interrogação, foi reprimido: “Imbecil, quem o fez tão ousado para que permitisse que essa vadia excomungada se aproximasse da igreja sem permissão. Eu vou fazer com que você seja posto em uma torre, para que não veja nem sol nem lua por um mês se fizer isso novamente.” De 10 a 17 de Março, as sessões foram conduzidas na prisão, em uma câmara. Toda essa interrogação precedeu a realização de qualquer acusação. Os Inquisidores examinaram uma pessoa para ver do que ela era culpada e então acusar a pessoa a partir do que encontrassem. As acusações foram então lidas para a réu, que poderia admitir a tudo, arrepender-se e ser punida – com prisão perpetua ou ser queimada, dependendo dos crimes, mas com a certeza de que havia feito a coisa certa e ainda era amada pela Igreja e por Deus; ou a réu poderia ser intransigente e negar (ou tentar explicar) seu comportamento ou crenças como expressas nas acusações, nesse caso ela seria queimada viva na esperança de que fosse se arrepender antes de morrer. Tortura era frequentemente usada para obter uma confissão de culpa, já que a confissão ajudava a salvar a alma da pessoa e salvar a alma herética era o propósito divino da Igreja nesses procedimentos.

A Igreja fez setenta acusações contra Joana. Elas iam desde o roubo de um cavalo até feitiçaria. Ser exposta a essas acusações e as responder era chamado de “julgamento ordinário”. Para Joana, essa fase de sua agonia começou no dia 26 de Março. A acusação número 66 era um resumo de todas as outras. Joana respondeu: “Eu sou uma boa Cristã. Eu responderei a todas essas acusações perante a Deus.” Ela se recusou a responder as últimas acusações e os Inquisidores interpretaram esse silêncio como uma admissão de culpa. Essa parte do “julgamento ordinário” terminou no dia 31 de Março.

No dia 2 de Abril, as setenta acusações foram encurtadas para doze: Pierre Cauchon desistiu das que não poderiam ser ligadas ao seu comportamento real e criou um processo que fosse mais forte politicamente, mais fácil de defender, não baseado em humor ou hipérboles.

Em 18 de Abril, o “julgamento ordinário” continuou na cela de Joana, onde ela foi admoestada pelos Inquisidores; ordenada para que se retificasse e se arrependesse. No dia 2 de Maio, ela foi admoestada em público, um procedimento formal que equivalia a uma ameaça publica a sua vida:

“Em conclusão, ela foi abundantemente exortada a se submeter à Igreja, sobre a ameaça de ser abandonada por ela. E se a Igreja a abandonasse, ela estaria em grande perigo de ambas alma e corpo; sua alma cairia em um fogo eterno, e seu corpo nas chamas desse mundo…”

Para o que ela respondeu: Vocês não farão o que dizem contra mim sem sofrer o mal, em corpo e alma. ”

No dia 9 de Maio, ela foi ameaçada com tortura – foi trazida para a câmara de tortura e os instrumentos foram a ela mostrados; e em 12 de Maio os juízes deliberaram privadamente se ela deveria ou não ser torturada. Eles decidiram que tortura não “era necessária no momento.” No dia 19, Joana foi condenada como herética pela Universidade de Paris, seus maiores eruditos e teólogos; e as doze acusações contra ela, agora oficialmente sancionadas pela Universidade de Paris, foram lidas para Joana no dia 23 de Maio. Ela foi novamente admoestada “para que corrigisse e acertasse suas falhas…” Joana permaneceu firme: “Quanto as minhas palavras e feitos, me refiro ao que disse em meu julgamento, eu irei mantê-los”

 

No dia 24 de Maio, Joana foi levada para um cemitério onde um patíbulo e uma tribuna haviam sido erigidos; e foi ameaçada de morte caso não se submetesse à autoridade terrena da Igreja. As palavras ditas por Joana em resposta foram mais humildes do que haviam sido até então, mas não humildes o suficiente; então lhe deram um papel com coisas escritas e a mandaram colocar sua marca nele (ela não sabia ler nem escrever). A disseram que ela seria queimada naquele mesmo dia caso não assinasse. O documento foi lido para ela; ela assinou. De acordo com testemunhas, o documento assinado era curto, talvez umas seis linhas; o documento publicado no arquivo do julgamento tinha quarenta e sete.

 

Joana foi sentenciada a prisão perpetua em roupas femininas.

 

No dia 27, ou 28, de Maio, ela se vestiu com roupas masculinas. Questionada em sua cela pelos Inquisidores sobre o motivo de tê-lo feito, já que esse ato de desafio custaria sua vida,

 

“Ela disse, de sua própria vontade. E que ninguém a havia forçado a fazê-lo. E que ela preferia vestes masculinas do que as femininas.”

 

Ela disse que havia se retratado “apenas por medo do fogo”; que ela “preferia pagar a pena de morte, do que aguentar a agonia do encarceramento”; e que ela nunca quis “revogar nada”.

No dia 30 de Maio, Joana a Moça foi queimada viva na fogueira. Caminhando em direção à fogueira, ela perguntou se alguém não a daria uma cruz. Um soldado deu a ela dois galhos, formando uma cruz. Diz a lenda que uma pomba branca saiu do fogo na hora de sua morte; que a palavra Jesus era legível nas chamas; e que o executor não conseguia queimar seu coração, que “quando o corpo queimou nas chamas e foi reduzido a cinzas seu coração permaneceu intacto e cheio de sangue.” O coração indestrutível tornou-se, como Marina Warner diz, “ a nova marca de sua integridade e incorruptibilidade…” O coração indestrutível é ligado ao seu corpo não destruído pelo sexo em vida, sua virgindade, a fonte de sua elegância e força do seu heroísmo: “ O vaso puro não pode, em última analise, ser destruído; nada pode ser feito quanto a isto.” Sem sentimentalismo, Joana disse em seu julgamento:

“que aqueles que desejavam a remover desse mundo, poderiam eles mesmos ir primeiro.”

E, de fato, todos foram.

Nós temos modelos; Joana tinha vozes. Suas vozes eram sempre acompanhadas por radiância, iluminação, uma expansão de luz. Ela via anjos e era visitada por Santas. Suas duas vozes especiais, guias e consolação, eram Sta. Catarina de Alexandria e Sta. Margareth da Antioquia. Enquanto muitas das elaborações sobre suas lendas mostram a iconoclastia individualista das duas santas, as linhas centrais de suas vidas – a substância de seu heroísmo – são virtualmente idênticas. Ambas eram desejadas por homens poderosos (chefes de estado), os recusaram, foram torturadas e decapitadas. Ambas estavam em combates mortais com o poder masculino e foram mortas por resistirem. Ambas eram virgens.

(CONTINUA)

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Vandana Shiva – Monoculturas da Mente (Parte 1)

[Vandana Shiva é autora do muito aclamado Permanecendo Viva: Mulheres, Ecologia e Desenvolvimento, Zed Books, Londres. Ela é Diretora da Resource Foundations for Science, Technology and Natural Resource Policy, Dehra Dun, e recebeu o prêmio Right Livelihood em 1993. Trabalha ativamente na ação dos cidadãos contra destruição ambiental, incluindo o movimento Chipko. Também é conselheira na área de Ciência e Meio-Ambiente no Third World Network.]

Os Sistemas de Conhecimento ‘Desaparecidos’

Na Argentina, quando o sistema político dominante enfrenta dissidência, ele responde fazendo com que as dissidentes desapareçam. As ‘desaparecidas’ ou dissidentes desaparecidas compartilham o destino dos sistemas locais de conhecimento ao redor do mundo, que foram conquistados através de políticas do desaparecimento, não de políticas de debate e dialogo.

O desaparecimento do conhecimento local através de sua interação com o conhecimento ocidental dominante acontece em muitos níveis, através de muitos passos. De inicio, o conhecimento local é feito desaparecer, por simplesmente não ser visto, a partir da negação de sua existência. Isso é muito fácil a partir do olhar distante do sistema dominante globalizante. O sistema de conhecimento ocidental geralmente tem sido visto como universal. No entanto, o sistema dominante é também um sistema local, com suas bases em uma cultura, classe e gênero específicos. Não é universal de um modo epistemológico. É apenas a versão globalizada de uma tradição muito local e paroquial. Emergindo de uma cultura colonizadora e dominante, sistemas de conhecimento modernos são inerentemente colonizadores.

A ligação entre poder e conhecimento é inerente ao sistema dominante, pois, em um viés conceitual, ele está associado a uma gama de valores baseados no poder que emergiu da ampliação do capitalismo comercial. Desigualdades e dominação são geradas pelas formas a partir das quais tal conhecimento é produzido e estruturado, a forma pela qual é legitimado e suas alternativas são deslegitimadas, e pela maneira que tal conhecimento transforma a natureza e a sociedade. Poder também é construído na perspectiva que vê o sistema dominante não como uma tradição local globalizada, mas como uma tradição universal, intrinsecamente superior aos sistemas locais. No entanto, o sistema dominante também é produto de uma cultura especifica. Como Harding observa:

 “ Nós agora podemos discernir (enxergar) os efeitos desses marcadores culturais nas discrepâncias entre os métodos de saber e as interpretações do mundo oferecidas pelos criadores da cultura moderna ocidental e aquelas características do resto de nós. As crenças favoritas da cultura ocidental espelham, em formas as vezes claras e as vezes distorcidas, não o mundo como ele é ou como gostaríamos que fosse, mas sim os projetos sociais dos seus, historicamente identificáveis, criadores.” (N.1)

A dicotomia universal/local é errônea quando aplicada a tradições de conhecimento ocidentais e indígenas, pois a ocidental é uma tradição local que foi espalhada por todo o mundo através de uma colonização intelectual. 

O universal se estenderia em abertura. O local globalizado se estende por violência e deturpação. O primeiro nível de violência lançada  nos sistemas locais de conhecimento é não vê-los como conhecimento. Essa invisibilidade é a primeira razão pela qual sistemas locais entram em colapso ao serem confrontados com o o conhecimento do ocidente dominante. A distância em si já remove os sistemas locais da percepção.  Quando o conhecimento local chega a aparecer no campo da visão globalizada, é feito desaparecer através da negação de seu status como um sistema de conhecimento, são dados a ele adjetivos como ‘primitivo’ e ‘não-científico’. Correspondentemente, o sistema ocidental presumi-se ser originalmente ‘científico’ e universal. O prefixo ‘científico’ para os sistemas modernos, e o ‘não-científico’ para o conhecimento tradicional tem, no entendo, menos a ver com conhecimento e mais com poder. Os modelos da ciência moderna que encorajaram essa percepção são derivados menos de uma familiaridade com verdadeiras práticas científicas, e mais de uma familiaridade com versões idealizadas que conferiram à ciência um status epistemológico especial. Positivismo, verificacionismo e falsificanismo são todos baseados no pressuposto de que, diferente das crenças locais e tradicionais pelo mundo, que são socialmente construidas, o saber moderno científico é determinado sem mediação social. Cientistas, de acordo com um método científico abstrato, são vistos como provedores de afirmações que correspondem com as realidades de um mundo diretamente observável. Os conceitos teóricos de seus discursos são, em principio, vistos como dedutíveis de postulações observacionais diretamente verificáveis. Novas tendências na filosofia e sociologia da ciência desafiaram as premissas positivistas, mas não desafiaram a suposta superioridade dos sistemas ocidentais. Assim. Kuhn, que demonstrou como a ciência não chega nem perto de ser tão aberta como popularmente é considerada, e é na verdade o resultado de um acordo de uma comunidade especialista de cientistas em relação a metáforas e paradigmas pressupostos que determinam sentido e termos constitutivos, ainda defende que o conhecimento moderno ‘paradigmático’ é superior a conhecimentos ‘pré-paradigmáticos’ que representam um estado primitivo de saber. (N.2)

Horton, que já argumentou contra a visão dominante do saber dominante, ainda fala de ‘poderes cognitivos superiores’ dos modos de saber da cultura científica moderna, que constituem em formas de explicação, predição e controle que possuem um poder sem comparações em qualquer tempo e lugar. Essa superioridade cognitiva, em sua visão, surge de uma ‘abertura’ que o pensamento moderno científico possui, em detrimento a um ‘fechamento’ do conhecimento tradicional. Como ele interpreta, “Em culturas tradicionais não há nenhum desenvolvimento de consciência para alternativas ao corpo estabelecido de planos teóricos, enquanto nas culturas cientificamente orientadas tal consciência é altamente desenvolvida”. (N.3)

No entanto, a experiência histórica de culturas não-ocidentais sugere que são os sistemas ocidentais de saber que são cegos a alternativas. O selo ‘científico’ atribui um teor de sagrado e uma imunidade social ao sistema ocidental. Elevando-se acima da sociedade e outros sistemas de conhecimento e simultaneamente excluindo outros sistemas de conhecimento do domínio dos conhecimento sistematicamente confiáveis, o sistema dominante cria para si um exclusivo monopólio. Paradoxalmente, são os sistemas de conhecimento considerados mais abertos, que são, na verdade, fechados ao escrutínio e a avaliação. A ciência moderna ocidental não pode ser avaliada, apenas pode ser aceita. Como Sandra Harding disse:

“Nem Deus nem a tradição são privilegiados com a mesma credibilidade que a racionalidade científica é nas culturas modernas… O projeto que a sagrada ciência torna tabu é a examinação da ciência da mesma forma que qualquer outra instituição ou conjunto de práticas sociais podem ser examinados.” (N.4)

(CONTINUA)

 

N.1 – (.Harding, S. 1986, The Science Question in Feminism, Cornell University Press, Ithaca, p. 8.)

N.2 – (Kuhn, T. 1972, The Structure of Scienti c Revolutions, University of Chicago
Press, Chicago.)

N.3 – (Horton, R. 1967, African Traditional Thought and Western Science, Africa
37, 2.)

N.4 – (Harding, op cit p30.)

 

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